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minha história

Não me lembro muito da minha infância, vivi numa fazenda, no interior da Bahia junto com meus irmãos. Por eu ser muito bonita, um dia o barão Alberto Soledade me pegou pra criar. Minha mãe me deu sem nem pensar. Fui embora para ilhéus, bem longe de onde morei. Para ser domesticada por ele, um homem que não era nada doméstico. Seus modos eram piores do que os meus. Só por ser branco, achava que era superior. O tempo foi passando, fui crescendo e ele achou de me abusar. Começou a fazer ozadia de branco comigo até o dia que inventou que eu ia casar com ele. Não gostei nada da idéia. De esposa só tinha o nome, porque era mesmo empregada dele. De noite me usava pra suas nojeiras. Um dia ele me manda ir entregar uns papel na casa de um outro barão que chegava na cidade. Chegava de Minas Gerais, o barão Fernando Vieira. Lá eu conheci uma senhora muito bonita, a esposa dele. Chamava Elenice Vieira. Aquela Elenice era muito saída. Gostava de sacanagem que nem os outros brancos. Só qu...

MEUS ANOS LÁ

MEUS ANOS LÁ A charrete correu distante. Lembro de muita coisa daquela tarde, do dia que cheguei lá. Nem mocinha era ainda. Meus pais ficaram do outro lado do mundo. Bem longe, que eu pequena nunca iria chegar. Trazia os cabelos louros cortados em cuia, artimanha dos meus tios que meus primeiros anos cuidaram de mim. Me vem embaçada na memória uma conversa entre o cocheiro e a madre. Momentos antes de ele me deixar e ir embora para sempre. Olhava atentamente cada janela e cada porta Cada canto de parede, cada palmeira que o vento balançava. Um letreiro assombrado pairava acima dos portões: “ORFANATO RENASCER” Um sol de despedida brilhava por trás do casarão. Sua luminosidade peculiar parecia me indicar que aquele era um fim. Me perdi. Já temia as freiras. Me assustavam suas roupas negras. Sua secura em falar dos maus modos das crianças. Sabia dentro de mim, que por muito tempo não veria o resto do mundo. Que não teria noticias de nada, como quem viaja para o futuro nu...

capítulo final

Queria poder contar a vocês só historias boas. Omitir as ruins e dizer que foi tudo como um sonho. Mas vocês nunca acreditariam em mim. Poderia dizer que passei o resto dos meus dias no castelo de Tokanda e passaria com esta história, tanta segurança, tanta felicidade que vocês se sentiriam como eu só em ouvir. Acreditariam no amor e em todas as coisas bonitas da vida. Mas não deu. Nada aconteceu como sonhei... -mulher de família não bate em homem. Seu pai adoeceu com o seu sumiço. E não vai gostar nada dessa historia... -ele vai gostar de saber que sua filha recebeu uma promessa de surra? De um homem que nem marido é? Deixa ele saber! -mas é um homem bom, que te ajudou a voltar pra casa... -voltei por falta de escolha! –falei baixo, olhando em seus olhos. – chegou atirando nos meus amigos e ninguém fez nada contra ele... atirou até no homem que eu queria casar... chama ele mais uma vez de homem bom, mãe! Chama! -o que estão discutindo aí? –gritou meu pai, da sala. –há meses sum...

+Alucarda+

-minha filha, guardo comigo historias dos seus dias. Quando meus pés já não caminhavam sobre a terra e os animais a vigiavam, torcendo por você. Quando os céus me levaram ao destino final. Um dia te contarei sobre suas próprias descobertas, sobre o mundo conquistado a sangue por suas mães e seu pai. Te contarei sobre a distancia que o sol e a lua percorreram após a minha partida, sobre os tempos difíceis da orfandade das duplas mães. O ódio que correu após, em seu sangue de criança, suavemente contra nosso ceifador. Lembro-me do estratagema que crescia entre seus brinquedos de criança. Os planos de morte contra seu pai. A tudo vi, intangível, do outro lado da vida. Lembro do nosso ceifador a tentar domar sem sucesso seu espírito mau. Sem entender o animal que era você. A tudo vi. Agora novamente entre nós, revelo o que não lembras mais e o que não percebeu. Aquelas coisas que corriam ao teu redor, planejadas por nossa mãe abaixo do meu nariz. Agora te conto... Dez anos contados após s...

folhas que voam

Nossos olhos se tocam sem que me veja, Sou o céu e o ar. A seiva em suas veias tem meu nome. Minhas mãos são o vazio em que pisam seus pés. As montanhas e morros, Colinas e serras, Campos selvagens e domesticados serão nossos Quando em seus olhos cair o véu. São suas as vestes etéreas, Tecidas pelos gigantes da vida. Pelos deuses dos animais E das plantas também. Grandes arvores a saúdam, Acompanham as pequenas Seu caminho no mar da paz, Na rota do meu coração, Seu trono sagrado. Um olho te espia entre as nuvens, Como num sonho, Olha em resposta como o abismo. Entorpecem os sentidos. Repousa calma no peito do amado, Uma folha que flutua.

Tokanda - capítulo segundo

Acordei no dia seguinte, novamente no castelo. As mesmas nuvens encobriam o céu, agora com um tom mais claro de manhã formada. Uma mesinha havia sido posta ao meu lado com comida. Era tudo muito familiar, apesar eu não reconhecia nada. A porta continuava fechada. Como se quem tivesse trazido o prato, quisesse me deixar a vontade. E de fato estava conseguindo. Uma tontura me invadiu a mente, linhas verdes borraram a visão por instantes como veias pulsando. De repente, as paredes pareciam ter se tornado invisíveis e conseguia ver uma dúzia de pessoas que estavam por ali. Nos outros quartos dormindo, nas salas de baixo conversando, andando pelo lado de fora. Pareciam todos estar conscientes também de minha presença. Era uma pequena família de camponeses. Tinha a consciência de que se forçasse um pouco mais a concentração, o restante dos que dormiam seriam acordados e viriam ao meu encontro. Então apenas caminhei até a janela e fiquei a observar a floresta e os que caminhavam por suas bord...

Tokanda - capítulo primeiro

Tenho um sonho muito distante com as matas ao redor do meu castelo, minha casa de fazenda... Tudo era um sonho. Os passeios a cavalo, as crianças a correr, minha adolescência. Um mundo infinito de alegria. Mas ainda assim, meu coração ainda voava longe... Um dia acordei num lugar desconhecido. A luz clara de um começo de manhã entrava pelas janelas do quarto. Uma calma profunda me invadia, como se o tempo houvesse parado, como se não houvesse mais futuro. Cheiro de lençol limpo, flores pela cama, tudo era tão aconchegante que a vontade era de beijar o travesseiro. Levantei devagar, como se qualquer aceleração pudesse estragar aquela sensação tão leve de paz. Das três janelas, a única aberta era a mais próxima de mim, na parede rente a cama. Levantei e vi um mundo novo ao lado de fora. Por dentro paredes de pedra, lá fora as nuvens amareladas enchiam o céu feito um quadro vivo. O lugar era cercado por uma floresta que se perdia no horizonte. Parecia estar bem longe dos meus. Não havia...

Denise - crossover

Fim de feriado, dia e noite cheios, eu já cansada, me preparava para partir. Era uma daquelas noites em que a gente não quer mais nada além da nossa cama. Havia trabalhado o dia todo cuidando de gente machucada. E pior, sem ganhar um centavo. A casa já estava fechando. Através da vidraça, uma jovem cruzava a rua vindo em minha direção, o coração disparou. Nunca havia ficado até tão tarde sozinha ali. Ofereci-me para ser a ultima, pois queria espantar a tristeza. - posso me esquentar um pouco aqui? está tão frio. – disse ela. - já estamos fechando. Se ficar tarde demais, não vai ter nem como sair. É perigoso aí fora. Era uma moça bonita de feições suaves. Parecia extremamente desconfortável. - pode entrar. – falei. – não sei como conseguiu atravessar tudo isso, a essa hora da noite. -Me perdi dos meus amigos no caminho. Não sei como vim parar aqui. Parecia viver enfrentando a si própria, tinha uns olhos tristes que demonstravam ao mesmo tempo fragilidade e rigidez. Sua boca me encantava...