Tokanda - capítulo segundo
Acordei no dia seguinte, novamente no castelo. As mesmas nuvens encobriam o céu, agora com um tom mais claro de manhã formada.
Uma mesinha havia sido posta ao meu lado com comida. Era tudo muito familiar, apesar eu não reconhecia nada.
A porta continuava fechada. Como se quem tivesse trazido o prato, quisesse me deixar a vontade. E de fato estava conseguindo.
Uma tontura me invadiu a mente, linhas verdes borraram a visão por instantes como veias pulsando.
De repente, as paredes pareciam ter se tornado invisíveis e conseguia ver uma dúzia de pessoas que estavam por ali.
Nos outros quartos dormindo, nas salas de baixo conversando, andando pelo lado de fora. Pareciam todos estar conscientes também de minha presença.
Era uma pequena família de camponeses.
Tinha a consciência de que se forçasse um pouco mais a concentração, o restante dos que dormiam seriam acordados e viriam ao meu encontro. Então apenas caminhei até a janela e fiquei a observar a floresta e os que caminhavam por suas bordas.
Momentos depois, alguém batia a porta...
Corri e me deitei para fingir que ainda dormia, desejava olhar sem ser diretamente encarada por quem quer que fosse. Precisava de lentidão para dialogar com meus anfitriões.
Queria saber das intenções deles...
-ainda dorme?- sentou na cama e perguntou baixinho em meu ouvido.
Não respondi.
- durma o tempo que precisar. Quando acordar vamos conversar bastante.- e acariciou meus cabelos.
Continuou sentada por alguns minutos, não conseguia olhar seu rosto, havia me deitado virada para a parede. Ao olhar em sua direção, ela já saía pela porta. Era uma mulher ruiva, usava um vestido branco que se arrastava pelo chão.
-não estou preparada para contato. –pensei.
Pensamentos silenciosos me invadiram a mente em resposta...
-tudo ao seu tempo, querida amiga.- veio a mim a consciência de saber de tais palavras.
Um arrepio me percorreu o corpo...
O tédio de ficar naquele quarto começava a me consumir. Resolvi então sair e caminhar sem pensar no impacto que me causariam as pessoas.
Enquanto dormia, alguém havia trocado as minhas roupas, usei desde então um longo vestido amarelo.
O manto havia sido deixado dobrado ao pé da cama.
As portas de alguns quartos estavam abertas, podia ver algumas pessoas neles. Cruzei o corredor não me importando mais em ser vista e sentei num banco que ficava no final da sacada.
Uma porta foi aberta as minhas costas. O quarto parecia ter se materializado no ar.
Apenas ouvi o girar da fechadura. Em seguida, mãos já conhecidas me tocaram os ombros. Mais uma vez, fechei os olhos em reflexo...
-não me olhe.
Uma flor me foi colocada no cabelo.
-sente o cheiro dela, vai te acalmar.
O cheiro daquela flor vermelha causava em mim a sensação de um abraço, literalmente falando. Como se a figura as minhas costas tomasse o ar.
Fiquei a sentir seu cheiro, de olhos fechados, mas agora mais leves.
Suas mãos massageavam meus ombros...
- ontem encontrei uma criatura estranha. - falei.
- é o jardineiro. Soube que você fugiu. Não precisa ter medo daquele menino. Ele só cuida das plantas.
- quando ja estava longe, quis voltar e falar com ele.
-a cabeça dele voa em outra dimensão, em outro lugar como esse. se acostume a essas figuras, ele aqui é o mais humilde.
Olhei em direção oposta quando sentou ao meu lado, fugindo ao seu olhar.
- porque foge aos meus olhares?
- tenho um pouco de vergonha, ontem entreguei meu corpo a uma mulher... Ainda estou me adaptando a isso.
- Me chame de Léo. Como conseguiu chegar até aqui? Porque se conseguiu nos encontrar, significa que é especial. e se consegue nos ver, devo então te apresentar ao nosso mundo.
- apenas acordei naquela cama, não me lembro do antes. Aquela a quem me entreguei me contou de um caçador que estava a minha procura. Desapareceu depois de ele nos encontrar. Toda a magia desapareceu quando o olhei.
- ele te quer... Um dia você vai conhecer o outro lado. e todos aqui morreremos por isso.
- ele foi gentil comigo, mas eu não o quero, aqui é o meu lugar. As roupas dele estão no meu quarto. Porque não nos livramos dela? Talvez ele não nos encontre mais.
- vamos jogar as roupas dele bem longe daqui.
A tarde avançava quando me tomou pela mão e saímos a voar por cima das florestas que nunca se acabavam. As nuvens haviam tomado um cinza de chuva.
Minha chegada por aqueles cantos mal completava um dia, imaginem vocês então como me era estranho poder voar. Não estivesse sendo guiada pela mão, provavelmente cairia lá de cima, ou sairia voando como uma folha no vento, sem rumo.
Voamos por toda aquela tarde. E ainda não conseguia me encorajar a olhar seu rosto. Ao anoitecer chegávamos a casa do caçador..
Por alguns momentos, o medo me tomou, o vimos sentado a mesa. Janelas abertas e as luzes acesas...
-as coisas aqui não funcionam a partir do seu sentimento, tudo é a vontade dele. - me disse baixinho. -podemos voltar para casa em segundos e nos livrar desse pesadelo, é só querer.
-ele não parece ser mau.
-ele não demonstra sua verdadeira face aqui. Onde vivemos, seu poder é tanto que só o seu rosto derrete as coisas ao redor. Ele nunca vai encontrar o nosso esconderijo se não contar. Podemos viver a vida toda lá...
Atirei o manto pela janela, acertando em cheio a mesa de café, derrubando-o pelo susto.
-não devia ter feito isso. Ele agora sabe que estivemos por aqui.
Com o manto apertado nas mãos, o jovem veio caminhando até a janela de onde o olhávamos. Com o rosto coberto de café, ficou a olhar a escuridão da rua sem nos ver.
-tem alguém aí? podia ter chamado. Não vou te morder. – falava ao vazio como se fosse a mim.
-é hora de ir.
De mãos dadas, tomamos grande velocidade. Tudo a nossa volta parecia maleável como borracha. A paisagem se transformou por instantes em milhares de linhas.
Pela primeira vez vi a grandeza do lugar. Era um castelo abandonado, cercado por uma imensa floresta. Não via nem de longe a minha cidade.
Descemos de volta a sacada.
-devemos nos separar por enquanto. Se alguém desconfiar que você está por aqui, vai vir a sua procura e nunca mais poderemos nos ver. Nos encontramos por aí. É só ir para o quintal e gritar: Léééé!
Continuamos de mãos dadas até entrar no quarto e fechar a porta.
-porque fica olhando sempre para baixo? – perguntou com a porta fechando.
-é o bastante para sonhar contigo. –pensei comigo.
E o silêncio se fez.
A noite era tão agradável quanto o dia, talvez até mais. As nuvens tomavam uma cor rosada que iluminava o lugar todo. E as pessoas se recolhiam para dentro de seus quartos.
Antes de dormir, ainda entrei em contato com alguns que moravam ali, desimportantes para esta história. Conheci a senhora que primeiro vi no amanhecer.
Também caminhei pelo lado de fora, era proibido ficar voando por ali...
“Há muito tempo atrás não havia regras por aqui. Os primeiros que chegaram, queriam apenas o descanso pelo descanso. Então criaram uma cabana em uma sala onde hoje é a cozinha e por ali ficaram, nada mais existia. Eram seis.
Por tempos eles ficaram aqui, só dormiam e vagavam. Um dia, uma nuvem de matéria escura conseguiu os encontrar. Seus pensamentos e desejos de inércia haviam criado uma abertura para o espaço externo e tudo começou a escoar.
Não antes de raízes cinzentas corroerem seus objetos.
Dois dormiam, foram absorvidos pelas raízes e tiveram suas mentes apagadas, literalmente embranquecidas pelo que invadia.
Se transformaram em árvores e só seriam libertos em milênios, quando novas eras chegassem.
Dois tentaram com as forças de suas mentes, reverter o processo de corrosão do seu mundo, entrando em fadiga...
Os dois últimos então, dando tudo por acabado, deram as mãos e deitaram um sobre o outro. E expandiram suas mentes até onde a vista não conseguia chegar, a idéia era deixar um recado aos que passassem por aquele canto do universo, para que nunca parassem quando chegassem por ali.
Um se iluminou e virou o céu. Brilharia para a eternidade para que todos pudessem enxergar as raízes.
O outro se fechou em volta de toda a inércia que consumia o lugar e virou o chão. Se alimentaria da inércia por toda a eternidade e a transformaria em movimento.
A inércia se tornou o nosso ciclo da vida, a lição de que nunca devemos totalmente parar, pois ela transforma em concreto tudo o que toca.
De suas mãos dadas, nasceu a fortaleza onde moramos hoje, um elo entre o céu e a terra. Para que moremos aqui com a condição de renovar os ciclos. Como um motor.
Por fim, os fatigados saíram em busca de seres escolhidos e os trouxeram para morar, o fazem até hoje, são invisíveis a nós e a quase toda a vida...
Muitos ciclos já se passaram desde aqueles dias, muitos vem e vão. Dos primeiros e segundos, não tivemos contato com nenhum, já partiram para outros cantos para criar novas moradas especiais.”
Estas palavras me foram contadas pela senhora do café, que me acompanhou um pouco durante a caminhada noturna.’
Acordei na manhã seguinte na casa dos meus pais. Olhei a porta e lá estavam três meninas. Usavam vestidos da cor do meu. As olhei rindo.
Revirei novamente para o lado da parede.
-essas meninas vieram te procurar. – disse a minha mãe.
-podem vir. -estou acordando, falei.
Entraram e a porta foi fechada atrás delas.
-Léo pediu para que viéssemos aqui... vamos te ensinar a chegar no nosso mundo.
A entrada era um buraco no meio da mata dos fundos da minha casa. Cada uma que descia, desaparecia magicamente ao tocar o chão. Fomos entrando pela janela do quarto onde dormia no meu novo lar.
Léo nos esperava. Fiquei por trás das meninas, a olhar o chão.
-não acha que já basta disso?- perguntou irritada sobre minha timidez.
As meninas sentaram na cama, conversando entre si...
Pousou sua mão sobre a minha, e muito timidamente, tentando não ser notada no gesto, retribui o toque com um aperto.
-não há o que temer.
Fui subindo aos poucos o olhar...
-você é uma menina bonita. –me abraçou e beijou-me a testa.
Sensações de memórias me invadiam a mente. Tentavam explicar o que já imaginava desde aquele dia que a senti.
Era como se o céu, a quem sempre olhei, fizesse parte de seu ser. Se misturava a luz da manhã. Era uma síntese do próprio azul, o azul celestial.
Olhando a terra, sentia seus pés a tocar os meus.
Era bela como um anjo. Daquelas que inevitavelmente a gente se apaixona.
Em vão, sondei lembranças de vidas anteriores em busca de algum traço de sua existência.
Olhinhos verdes brilhavam para mim com dureza. Podia ler todo o seu jeito em suas feições, seus caminhos. Meus olhos eram línguas caminhando entre balas de marfim.
De alguma forma lembrava a flor do meu cabelo. Seu cheiro e suas cores.
E Sorri.
Podia ficar ali o dia todo, imaginava que ela estivesse olhando o que se passava dentro da minha cabeça, sabendo dos meus olhares.
-tenho um convite a fazer. Quer se transformar em uma de nós? A eternidade será sua, vai poder morar aqui o tempo que quiser.
Basta dizer que aceitei. Saímos pouco depois, a procura da sala do juiz Creito do cavaco. O responsável por permitir a transição entre os mundos.
Ficava em um canto mais afastado do castelo. Mais vazio.
A todo momento pessoas desapareciam no ar ou reapareciam.
E bem poucos tinham forma humana.
Passamos por um corredor cheio de cadeiras de espera, alguns poucos sentados por ali.
No final estava a porta do Creito.
Me despedi das meninas e entrei sem bater.
-já te esperava. -disse Creito, uma forma esponjosa alaranjada. -não se assuste com a minha forma, já estou velho. Olhe... -e senti seus grandes olhos a centímetros dos meus. Não causava medo, ao contrário, me invadia uma sensação de paz. Como um avô.
Por uma curta sondagem mental, me mostrou ser uma entidade antiga, cujo corpo vinha sendo derrotado pela ferrugem do tempo.
-acordei aqui há dias atrás, gostei tanto que as próprias meninas me perguntaram se eu queria ficar.
-são poucos humanos que chegam por aqui, posso te entregar a chave da passagem sem problemas. Mas o seu mundo passa por dias difíceis, o lado de lá pode não permitir que fique por muito tempo. Eles tem poder sobre você, sobre as mulheres.
Deixei escapar uma exclamação de impaciência. Achava desnecessário voltar lá e sofrer se já havia acostumado com a nova morada.
-não posso apenas ficar aqui e não voltar mais? Ninguém vai me procurar. Se procurarem, ninguém vai me achar.
-um dia poderá ficar. Mas antes terá que passar por grandes perdas em seu mundo de origem. Olhe para a frente. Veja o seu destino final...
As paredes começaram a derreter, dando lugar a espirais azuis, que giravam e me deixavam tonta. A mesa do juiz se dividiu em duas e transformou-se em dois pequenos humanóides de pele alaranjada e grandes olhos de gafanhoto.
Me seguraram pela mão e o mundo se apagou...
Avancei aos dez minutos finais de minha vida. Me vi sentada numa cadeira de balanço, já passando dos 100 anos de idade. Estava num quintal fumando um cachimbo. Ria com lembranças de tempos distante, da juventude. Netos e bisnetos estavam comigo.
Caí do balanço sofrendo um ataque do coração. Não sofri, a dor havia sido tão intensa que a mente me jogou na escuridão para aliviar...
-espalhem minhas cinzas por este quintal... -disse antes de morrer.
O corpo deixou de responder, mas ainda continuava a ver meus familiares em volta. Os ouvia sem que pudesse mais me mexer.
Ainda durante os dias em que me velavam o corpo, ouvia e sentia tudo a minha volta. Agonizava as vezes, quando me colocavam em posição desconfortável e não podia me consertar, ou quando algum inseto me mordia. Mas nada tirava a paz.
Vi uma vida secreta. De dia uma moça de família. A noite chocava a alta sociedade, beijando em público outras mulheres, as vezes até as tirando para dançar. Não muito distante da minha juventude, me aguardavam infinitas noites de prazer.
Meu marido se fingia surdo aos comentários e cego aos dedos que me apontavam.
Antes de abandonar o corpo, ainda senti os últimos momentos na pira funeral onde agonizei.
Ouvia e sentia no peito o choro dos meus, se despedindo, aquilo aliviava a dor. Desejava levantar dali e dizer a todos que não estava morta, mas o corpo pesava.
Com o avançar da tarde, as chamas aumentaram até me consumir todo o corpo, a agonia parecia nunca ter fim. Até o cair da noite, quando só me restaram as cinzas.
Mas inexplicavelmente, até aquele momento, de alguma forma eu ainda vivia.
Sentada em minha velha cadeira, fiquei a ver meus netos semeando minhas próprias cinzas pelo quintal.
Me balançava e sorria para eles.
Uma hora me levantei e espiei por dentro da janela. Meu filho empalideceu ao me ver e deixou escapar um horrível grito de terror...
Me assustei com aquela reação inesperada e paralisei. Seus filhos entraram em casa enquanto ele apontava para mim, dizendo meu nome entre respirações.
Num canto da casa estava um espelho, e vi uma criatura com o corpo todo em carne viva e também gritei.
Apenas ele viu quando fechei os olhos e fui embora para nunca mais voltar.
Com meu corpo totalmente queimado, fugi para bem longe dali. Andei por ruas e ruas sentindo toda a pele voltando a queimar. Mas não era tão difícil quanto parecia, eu apenas seguia em frente.
Me olhar naquele espelho me deixou cega. O fogo me havia consumido a pele dos olhos, deixando apenas duas massas de carne sem pupilas.
Toda a dor voltara e meu corpo se reconstruíra desajeitadamente.
Não sentia o cansaço, apenas subia e descia ladeiras sem cair ou escorregar. O mundo era terrivelmente vazio para uma cega.
Continuei a caminhar naquele estado por dias.
As vezes pisava em coisas pegajosas como num pântano. Ouvia o som dos meus passos na água.
As vezes sentia o roçar de folhas, para no momento seguinte tocar o vazio, como se elas fugissem ao meu contato.
Mergulhei fundo na lama, para espantar o frio e diminuir a dor.
Talvez melhorasse se continuasse ali. Acabei dormindo por muito tempo.
Ao acordar, o mundo continuava vazio e silencioso, a ajuda não havia chegado. Talvez nunca viesse,entrei em desespero.
Chorava, imersa na lama. Nem a morte vinha.
Foi quando comecei a perceber que não estava só, eles eram silenciosos mas de algum modo se faziam ser percebidos pela presença.
A medida que meu temor aumentava, vozes de gente e outros sons também iam aumentando. Eles pareciam sentir o meu desespero pois também estavam desesperados, sofrendo talvez até mais do que eu.
Tornava-se cada vez mais difícil controlar a ansiedade, aquelas vozes eram medonhas, e me faziam acreditar que a morte, que nunca vinha, estava cada vez mais próxima.
A lua iluminava fracamente através das nuvens de chuva, aos poucos voltava enxergar. Vi um mar de cabeças que flutuavam no mesmo rio que eu. Ao longe, montanhas negras deixavam a paisagem ainda mais triste.
Era uma morta entre milhares, apenas uma cabeça flutuando no meio de muitas mais. Perceber aquilo me destruía o ego, me sentia um grão de poeira.
Alguns conversavam, tornando o lugar ainda mais insuportável. E não era entre si, pensavam alto apenas para usar a sombra de humanidade que lhes restava.
Chorei com saudades de casa. Fechei os olhos e lembrei dos momentos mais felizes da minha vida, acreditando que nunca mais os teria de novo.
Uma música suave me chegava aos ouvidos de muito longe e ia aproximando devagar.
Soava por horas e horas sem parar, me deixando calma. Após um tempo passei a acompanhar a melodia e a cantar mais ou menos alto.
As cabeças que flutuavam, ao me ouvir começaram a gritar para que eu parasse. Tentavam abafar meu canto.
A medida que ia aumentando, algumas nuvens timidamente se abriam mostrando um céu azul claro.
Logo ouvia o som de águas se movendo...
E remos.
O som das águas parecia limpar de mim toda a visão dolorosa do falecer. Apesar de as cabeças continuarem ali, a presença delas foi se tornando cada vez mais imperceptível perto da beleza da cena que se desenrolava.
Já não desejava mais a minha casa, no lugar da saudade se instalou uma voz...
-eles vão ficar bem, sua história foi escrita...
Eles iriam morrer um dia como eu. E seguiriam seus caminhos. Aquela vida acabava como o dia que se vai quando chega a noite. E seria lembrado como um dia feliz entre tantos outros que se foram e que viriam.
Me tomou uma grande vontade de conhecer o novo. Encontrar o que viria.
-vamos embora? -da barca me estendeu a mão um jovem negro de cabelos cacheados. -vamos para casa. -insistiu ternamente.
-você é tão bonito, sou uma velha queimada. -resmunguei enquanto subia na barca segurando suas mãos.
Sentei num canto, tremendo de frio e fui envolvida em um manto verde claro.
A barca foi subindo em direção ao céu azul. As cabeças foram diminuindo até ficarem bem distantes, pareciam pequenos pontos no infinito.
-estamos indo para um lugar que só a gente sabe. -disse como quem fala a uma criança. -lá só entram pessoas especiais, você já sabe da conversa toda...
A altura me deixava tonta, já não se viam mais cabeças nem o pântano. Entramos numa nuvem e saímos sobre uma grande floresta.
Terminamos nossa viagem descendo no terraço do castelo no meio da mesma floresta.
-não estou nada apresentável, pessoas especiais são bonitas.
Em silêncio ele me envolveu em seus braços e descemos as escadas.
Passamos por alguns corredores e paramos a porta de um quarto...
-como está ela? –Uma jovem numa capa escura me tocou os ombros.
-vai ficar bem. -disse ele.
Olhei os dois, saudosa.
-onde está ela?
-podemos cuidar dela juntos. – disse o jovem moreno, ignorando a minha pergunta.
Entramos no quarto, os jovens escondendo as mãos dadas embaixo de suas capas.
-não olhem para mim, estou velha e queimada. -disse eu, já sentada a cama com o manto cobrindo o rosto.
-não posso muito falar. -seus enormes olhos verdes brilhavam.
Me segurou pelas mãos, de joelhos a minha frente...
-olhe meus olhos.
Duas esmeraldas brilhavam, me penetrando a alma.
Sentia como se alguém respirasse por mim, o ar entrava e inflava todo o corpo como um copo voltando a forma original.
-mergulhe sem medo. -já não ouvia sua voz, apenas o pensamento me guiava...
Fui transportada ao fundo daquele olhar e mergulhei numa imensidão verde, um líquido etéreo me reconstruía os tecidos carbonizados e penetrava profundo em mim. Meu ser adotava estrutura totalmente nova.
Dentro de mim e como uma terceira pessoa, enxergava meus olhos serem preenchidos por rios de verde. E medida que enchiam, a visão se reestruturava.
Minhas mãos estavam velhas pela idade, abriam e fechavam descontroladamente e iam rejuvenescendo.
E assim foi com todo o resto do corpo. E voltei a mim jovem novamente...
-durma o quanto precisar. Vamos cuidar especialmente de você. –disse a jovem. – lembra de mim? Sou Brubillí.
Olhei seu rosto encantada e a beijei. Durante breves segundos fui correspondida...
-que isso não se repita. -disse me afastando. -sabia que pode ser expulsa daqui?
-me desculpe... -disse desviando o olhar. -não me contive.
-não precisa se desculpar. Nós duas seríamos expulsas daqui... E para sempre. Além do mais, meu companheiro está bem aqui.
-vocês são livres. – disse calmamente. –mas que isso não se repita.
Continuei em silêncio, fui olhar o céu da janela.
-acho que você já viu o suficiente do futuro. – disse Brubillí – é hora de voltar...
Seus dedos me tocaram os olhos e dormi...
Estava de volta a sala de Creito. Tudo havia voltado ao seu lugar...
-ela não teve culpa... -disse a ele e chorei.
-é o destino, em algum canto da mente, há muito tempo atrás, ela pediu que fosse assim. Já está feito.
Me veio a mente o escuro do espaço, um pensamento protegido que só o meu subconsciente entenderia.
Bastou que sua mente tocasse a minha e em pouco tempo, Creito me desbloqueou os processos da telepatia.
A transmissão de pensamentos, a comunicação mental era tão veloz que em segundos se contava o que normalmente levariam horas. Transmitia sentimentos apenas os sentindo. Seu alerta escuro, se desenrolou através de imagens que imediatamente esqueci mas que se gravou em minha mente para sempre. Não tivesse consciência de tais faculdades da mente, confundiria meus pensamentos com os dos outros. Pensaria estar conversando comigo mesma.
Sentia que a qualquer hora iria ouvir os pensamentos do mundo se não soubesse controlar. Preferia a pouca mobilidade humana e sentiria falta dela.
Ao cair da noite já estava de volta a casa da minha família. Não dormi, pensativa sobre o que desencadeei. Ao amanhecer ainda chorava.
Depois de dias sem os encontrar, descobri que o buraco do meio da floresta havia sido fechado.
Comentários