MEUS ANOS LÁ
MEUS ANOS LÁ
A charrete correu distante.
Lembro de muita coisa daquela tarde, do dia que cheguei lá.
Nem mocinha era ainda.
Meus pais ficaram do outro lado do mundo. Bem longe, que eu pequena nunca iria chegar.
Trazia os cabelos louros cortados em cuia, artimanha dos meus tios que meus primeiros anos cuidaram de mim.
Me vem embaçada na memória uma conversa entre o cocheiro e a madre. Momentos antes de ele me deixar e ir embora para sempre.
Olhava atentamente cada janela e cada porta
Cada canto de parede, cada palmeira que o vento balançava.
Um letreiro assombrado pairava acima dos portões:
“ORFANATO RENASCER”
Um sol de despedida brilhava por trás do casarão. Sua luminosidade peculiar parecia me indicar que aquele era um fim.
Me perdi.
Já temia as freiras. Me assustavam suas roupas negras. Sua secura em falar dos maus modos das crianças.
Sabia dentro de mim, que por muito tempo não veria o resto do mundo. Que não teria noticias de nada, como quem viaja para o futuro numa bolha do tempo.
Logo a charrete começou a tomar distancia. Foi partindo para longe.
Uma tontura me invadiu, daquelas que vem entre uma época e outra, naqueles espaços de espera e recordações.
Enquanto pensa no que se foi, se prepara para o que vem. O desconhecido.
Imaginei como as estrelas lá em cima se sentiam, brilhando distantes umas das outras. Eternamente solitárias.
A madre me olhava com carinho, sentindo minha melancolia.
Se me lembro bem, iam os meus nove anos.
Nessa idade, as impressões são mais fortes.
Congelei vendo a poeira que os cavalos faziam subir.
Minha mente infantil imaginava fatalidades. A qualquer passo errado dado dali a frente, a qualquer erro que cometesse, poderia morrer sem o abraço dos meus pais.
Ninguém me perdoaria como antes.
Travei na entrada.
-to com dor de barriga. –consegui falar, assustada, cheia de lagrimas.
Então a madre agachou até ficar a altura dos meus olhos.
-vem conhecer seus amigos vem. Logo isso passa. Você vai gostar daqui. –me sorria, tentando me acalmar.
Então entramos pelo portão de mãos dadas.
-ninguém vai te maltratar aqui não. São uns menino muito bom, que nem você é. Logo você se acostuma, vem.
No pátio tudo era silêncio, as outras crianças estavam em outros cantos.
Lembro da primeira visão que tive do meu novo quarto, as muitas camas lado a lado umas das outras.
Fingi ser invisível quando os meninos chegaram. Sentei a janela e fiquei a olhar a noite que caía, imaginando o que podia estar acontecendo do outro lado do mundo. Com a minha família distante.
Só queria ir embora. Tinha a impressão de que a qualquer momento eles viriam me buscar, e que tudo acabaria.
Então esperei.
Não quis comer com os outros quando a hora chegou. E quando eles foram se deitar, deixei minha cama vazia e continuei a olhar da janela, através da vidraça.
Vi a madrugada cair.
As luzes foram se apagando até que só consegui ver umas nuvens no céu.
Foi a noite mais longa da minha vida.
Sentia o vento passando lá fora, até o quarto estava frio.
Lutava contra o sono, ele podia me apagar as lembranças de casa e me fazer ficar a vontade ali.
E quando meus pais voltassem, podiam não mais me reconhecer.
Então encostei o queixo na janela e esperei.
A charrete correu distante.
Lembro de muita coisa daquela tarde, do dia que cheguei lá.
Nem mocinha era ainda.
Meus pais ficaram do outro lado do mundo. Bem longe, que eu pequena nunca iria chegar.
Trazia os cabelos louros cortados em cuia, artimanha dos meus tios que meus primeiros anos cuidaram de mim.
Me vem embaçada na memória uma conversa entre o cocheiro e a madre. Momentos antes de ele me deixar e ir embora para sempre.
Olhava atentamente cada janela e cada porta
Cada canto de parede, cada palmeira que o vento balançava.
Um letreiro assombrado pairava acima dos portões:
“ORFANATO RENASCER”
Um sol de despedida brilhava por trás do casarão. Sua luminosidade peculiar parecia me indicar que aquele era um fim.
Me perdi.
Já temia as freiras. Me assustavam suas roupas negras. Sua secura em falar dos maus modos das crianças.
Sabia dentro de mim, que por muito tempo não veria o resto do mundo. Que não teria noticias de nada, como quem viaja para o futuro numa bolha do tempo.
Logo a charrete começou a tomar distancia. Foi partindo para longe.
Uma tontura me invadiu, daquelas que vem entre uma época e outra, naqueles espaços de espera e recordações.
Enquanto pensa no que se foi, se prepara para o que vem. O desconhecido.
Imaginei como as estrelas lá em cima se sentiam, brilhando distantes umas das outras. Eternamente solitárias.
A madre me olhava com carinho, sentindo minha melancolia.
Se me lembro bem, iam os meus nove anos.
Nessa idade, as impressões são mais fortes.
Congelei vendo a poeira que os cavalos faziam subir.
Minha mente infantil imaginava fatalidades. A qualquer passo errado dado dali a frente, a qualquer erro que cometesse, poderia morrer sem o abraço dos meus pais.
Ninguém me perdoaria como antes.
Travei na entrada.
-to com dor de barriga. –consegui falar, assustada, cheia de lagrimas.
Então a madre agachou até ficar a altura dos meus olhos.
-vem conhecer seus amigos vem. Logo isso passa. Você vai gostar daqui. –me sorria, tentando me acalmar.
Então entramos pelo portão de mãos dadas.
-ninguém vai te maltratar aqui não. São uns menino muito bom, que nem você é. Logo você se acostuma, vem.
No pátio tudo era silêncio, as outras crianças estavam em outros cantos.
Lembro da primeira visão que tive do meu novo quarto, as muitas camas lado a lado umas das outras.
Fingi ser invisível quando os meninos chegaram. Sentei a janela e fiquei a olhar a noite que caía, imaginando o que podia estar acontecendo do outro lado do mundo. Com a minha família distante.
Só queria ir embora. Tinha a impressão de que a qualquer momento eles viriam me buscar, e que tudo acabaria.
Então esperei.
Não quis comer com os outros quando a hora chegou. E quando eles foram se deitar, deixei minha cama vazia e continuei a olhar da janela, através da vidraça.
Vi a madrugada cair.
As luzes foram se apagando até que só consegui ver umas nuvens no céu.
Foi a noite mais longa da minha vida.
Sentia o vento passando lá fora, até o quarto estava frio.
Lutava contra o sono, ele podia me apagar as lembranças de casa e me fazer ficar a vontade ali.
E quando meus pais voltassem, podiam não mais me reconhecer.
Então encostei o queixo na janela e esperei.
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