+Alucarda+
-minha filha, guardo comigo historias dos seus dias.
Quando meus pés já não caminhavam sobre a terra e os animais a vigiavam, torcendo por você.
Quando os céus me levaram ao destino final.
Um dia te contarei sobre suas próprias descobertas, sobre o mundo conquistado a sangue por suas mães e seu pai.
Te contarei sobre a distancia que o sol e a lua percorreram após a minha partida, sobre os tempos difíceis da orfandade das duplas mães.
O ódio que correu após, em seu sangue de criança, suavemente contra nosso ceifador.
Lembro-me do estratagema que crescia entre seus brinquedos de criança. Os planos de morte contra seu pai.
A tudo vi, intangível, do outro lado da vida.
Lembro do nosso ceifador a tentar domar sem sucesso seu espírito mau. Sem entender o animal que era você.
A tudo vi. Agora novamente entre nós, revelo o que não lembras mais e o que não percebeu.
Aquelas coisas que corriam ao teu redor, planejadas por nossa mãe abaixo do meu nariz.
Agora te conto...
Dez anos contados após seu nascimento, as forças abandonaram de vez o meu já frágil corpo. Caí numa doença que só teria cura em séculos a frente. Mal que em questão de meses tomou o resto de minha vida.
Parti feliz, tombando da minha cadeira de balanço, livre das algemas do mundo.
Aquele que aos olhos da razão humana, dizia ser seu pai, me amava como se ama um animal numa jaula. Acreditava estar dando a nós, o melhor da vida, enquanto nos mantinha no cativeiro da moralidade.
O fiz acreditar ter sido ele o que te gerou. Mas sua única função era a de te proteger das garras de outros carrascos como ele.
Sua verdadeira mãe, há muito havia partido.
Nem nos céus, antes que os segredos da sua vida fossem planejados. Nem no tempo em que as palavras mágicas foram sussurradas aos seus ouvidos. Nem os meus olhos haviam tocado os olhos to caçador. Nem a mão havia sido levantada para abaixar e findar o tempo do meu coração. Nunca antes havia visto os olhos angelicais da sua mãe celeste. Olhos pelos quais me apaixonei e te geramos.
A geramos numa festa que durou dez dias. Nesse mesmo tempo fomos coroadas rainhas do céu e da terra.
Passaste a usar roupas escuras após meu velório, os gênios da sua mãe angelical iam crescendo em sua mente.
Já demonstrava a indignação. Nada que girava ao seu redor era suficiente para acalmar seus mistérios.
Nada clareava o que tentava enxergar.
A dureza da vida de mulher te esfriava as narinas todas as manhãs. Todas as respostas eram as mesmas a todas as perguntas.
-se comporte como a moça que já é. –dizia seu pai.
A leitura te foi privada, por não precisar de livros para cuidar da casa. Mas em resposta, a lógica te afiava a mente, impedindo que caísse na escuridão da ignorância.
Falava a língua dos animais do dia e dos demônios da noite.
Cantava com os pássaros e paralisava com os predadores. A tudo interpretava como inata estudante do oculto.
O mundo encantava seus olhos cor de turmalina.
Sempre solitária.
Assisti aos primeiros dias após nossa despedida, em que passava as tardes esperando que me levantasse do tumulo.
Não percebia os esquilos te espiando. Aqueles pequenos mensageiros meus, te distraíram até que suas lagrimas secassem e não mais sentisse a distancia que caiu entre nós.
Poucos anos mais tarde, em dias esquecidos, foi aprendendo a negociar com os demônios, com os seres que conviviam do lado de cá.
Aprendeste com grandeza a conviver com seres distantes da nossa natureza, que traziam a justiça através da destruição.
A mão invisível da rainha dos céus guiava a sua para que enlouquecesse o feitor. Em seu ódio, por fim, abandonaste de vez o titulo de pai e o tratava por feitor.
Durante as madrugadas, gritos ecoavam pela casa em que morei, assustando o pobre homem. Você dormia, insuspeita como uma criança.
Com a chegada da juventude, mostrou a todos que finalmente podia cuidar do lar sem que o mesmo viesse abaixo. Passou a ser deixada então, a cuidar sozinha do lar durante os dias de viagem do seu pai.
Anos mais tarde, fugindo dos fantasmas com quem dividia a cama, o feitor mudou-se com você para um país distante. Dizia ele que nem as almas de seus pesadelos saberiam falar francês.
-Alucarda, vamos embora para o sul da França.
E assim a vida correu.
Numa tarde chuvosa, Alucarda cozinhava solitária.
-Alucarda. – uma voz desconhecida a chamava da porta dos fundos, logo atrás das suas costas. –aqui comigo, Alucarda. Venha conhecer sua avó.
-calma que já chego. –disse distraída.
Apenas a chuva caía sem dó. Apenas se via os campos vazios.
-não vou entrar nesta chuva para brincadeiras.
Sua alma jovem não assustava fácil. Apenas voltou a mexer suas panelas.
-Alucarda, mal criada, aqui! –dentro da panela, uma das pernas da ave cozida acenava. –venha cumprimentar seus avós, menina...
Aparentemente alheia aos apelos, tampou a panela furiosa.
-mal conheci minha mãe. –saiu pensativa.
...continua
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