Denise - crossover
Fim de feriado, dia e noite cheios,
eu já cansada, me preparava para partir. Era uma daquelas noites em que a gente não quer mais nada além da nossa cama. Havia trabalhado o dia todo cuidando de gente machucada. E pior, sem ganhar um centavo. A casa já estava fechando.
Através da vidraça, uma jovem cruzava a rua vindo em minha direção, o coração disparou. Nunca havia ficado até tão tarde sozinha ali. Ofereci-me para ser a ultima, pois queria espantar a tristeza.
- posso me esquentar um pouco aqui?
está tão frio. – disse ela.
- já estamos fechando. Se ficar tarde demais, não vai ter nem como sair. É perigoso aí fora.
Era uma moça bonita de feições suaves. Parecia extremamente desconfortável.
- pode entrar. – falei. – não sei
como conseguiu atravessar tudo isso, a essa hora da noite.
-Me perdi dos meus amigos no caminho. Não sei como vim parar aqui. Parecia viver enfrentando a si própria, tinha uns olhos tristes que demonstravam ao mesmo tempo fragilidade e rigidez. Sua boca me encantava como uma serpente, e quase me perdi.
-quer... que te faça companhia?-
perguntei vacilante. – posso ficar por aqui se quiser. Temos tudo para passar a noite, e ninguém vai atravessar a porta depois que ela for fechada.
-não vou atrapalhar? Queria até pedir para me ajudar com um curativo, não consigo me lembrar de onde foi que me machuquei desse jeito. – chegando mais para a luz, gelei. Seu olho esquerdo era uma poça de sangue. Mas ela aparentava não sentir dor.Caminhamos para uma pequena sala, onde pedi que deitasse para cuidar melhor do ferimento.
Engraçado era tocar seu sangue, sentir o horror que havia passado até chegar ali. Era um anjo. Realmente me
encantei como quem observa um quadro bonito e sente vontade de atravessar a barreira da tinta, como quem quer viver o que o sonho mostra.
Seu trauma, sua dor de se sentir incapaz, tudo sumia com o meu toque. O passado triste ia deixando de existir, não para sumir da memória, mas para dar lugar a um entendimento maior. Das coisas que viriam ao seu destino, depois daquele momento, com aquele
aprendizado. Era incrivelmente belo, dar a mão a um ser como aquele. Momentos bons.
Precisaria eu ser forte, ter disciplina para saber que não poderia partilhar da sua alegria, de seus momentos que viriam. Mesmo sabendo que não ia faltar gratidão da sua parte.
Mesmo sabendo que logo viria o esquecimento... E me tornaria uma estranha.
Seus olhos iam aos poucos retornando ao brilho natural, me deixando ruborizada ao tocar seus azuis...
-logo você volta a enxergar. É passageiro. – e desviei o olhar.
-obrigado. – e sorriu. – me chamo Denise.
-nome lindo. Lembra uma fada. Como
você mesma parece. Me chamo Isabel, trabalho aqui há pouco tempo. Você é a primeira pessoa que cuido sozinha, sem ninguém no meu ouvido dizendo o que fazer.
-tentei ser enfermeira há uns anos atrás. Mas tinha ataque de pânico, então desisti e resolvi seguir carreira de psicóloga.
-vou te mostrar o quarto. Estou um pouco cansada, só quero tomar um banho e deitar.
Caminhamos pelos corredores em silencio. Só se ouvia o vento lá fora, cantando. Ruas de neblina, vazias de
gente. Era como estar a mundos de distancia da terra, a mundos de distancia de toda humanidade.
Fazia silencio a plateia que assistia ao espetáculo do vento, ao show do vazio gelado lá de fora.
O quarto era escuro, não sabia como acendê-lo. A pouca iluminação vinha dos postes da rua. Nos aqueceríamos com nossos próprios risos, com histórias do que passou e do que poderia vir.
Era tão tímida quanto eu.
Fora o poste, lá fora tudo era escuro, noite densa. A névoa embaçava a janela, me enchia de medo e segurança.
-então, como você se distrai por aqui?- disse ela quebrando o silencio.
- saio por aí, caminhando sem destino, é legal. Se quiser ficar por um tempinho, posso te levar comigo. – tentava
demonstrar com rápido olhares o que se passava dentro de mim, meu encanto.
- te sigo pra onde for. Não conheço nada aqui mesmo. Amanhã é onde continua a minha existência, vou ter que aprender a me
readaptar a tudo. Vou ficar circulando por aí. Que nem você.
Ela havia sido assassinada com um tiro na nuca e sua inocência era como um colete, que a protegia do sofrimento.
Nem teve tempo de sofrer ou de saber o que havia se passado. Simplesmente estava conversando para no momento seguinte escurecer a luz dos seus olhos e morrer. Depois disso ficou a caminhar desnorteada, a procura dos seus amigos. Sem lembrar-se de nada. Sem saber que vagava no pós-vida. Depois de um desejo de boa noite, nos deitamos. As camas lado a lado, como num orfanato.
Tentava dormir, mas a mente continuava a mil. Não ousava olhar para sua cama, medo de ser pega a observando. As horas passavam. Tudo era silencio fora de mim. Era como se cada minuto ao seu lado fosse precioso, e me assustava saber que a madrugada avançava rápido e que tais momentos iam se desperdiçando sem dó, pelo meu medo. Pudesse alguém ali parar o tempo. Já imaginava a despedida da manhã.
A dor de saber que nunca mais nos veríamos.
Para o bem ou para o mal, deveria voltar a minha família, que junto a mim recebia outros que vagavam por aí, sem saber que haviam morrido. Ainda deveria despertar, descobrir por conta própria seu caminho.
Os pensamentos iam alto, nenhum conseguia atrair sua atenção, despertar seu sono. Sentia-me uma derrotada.
De tanto pensar, dormi.
Acordei com a aurora muito levemente clareando o céu, só se ouvia o silencio peculiar do amanhecer que chegava. As maquinas já desligadas, faziam vir a tona as respirações do mar, muito distante. Os animais começavam a acordar. Era tudo solidão, dali a poucas
horas o hospital se encheria de gente, e o dia recomeçaria.
De olhos semicerrados, a procurei em seu leito.
Estava vazio.
Talvez tivesse ido embora.
Ao me virar então, o coração disparou. Denise ressonava ao meu lado, sentada a beira da cama.
Tomada por uma tímida felicidade, misto de medo e excitação, passei a sentir onde seu corpo tocava o meu. Suas
pernas gordinhas na cama pequena. Não queria me mexer.
-desce. – falei num sussurro, tocando sua mão. – cabemos nós duas aqui.
Como um gato, ela se aninhou entre minha coberta. Embriagada pelo sono. Abracei-a timidamente, sentindo o cheiro
do seu cabelo. Quis chorar.
Suas mãos percorreram minhas costas até me acariciar o rosto. Fingi estar dormindo para não espantá-la, para
deixá-la livre para fazer o que quiser.
O coração queimava numa paixão súbita.
E sorri.
A minha frente voavam os cavalos, dançavam as nuvens. Seu toque me fazia voar. Suas mãos tocando meus cabelos, era a vida.
Os momentos seguintes, sempre que devindos pela memória, se dispersam ante a tentativa de sair de mim, ao tentar
serem narrados...
O fogo do sol. Seu rosto cada vez mais próximo do meu até um beijo afastar o resto da distancia que havia entre
nós. Beijo longo, nossas mãos a caminhar pelo rosto, como abelhas voando ao entardecer. A desejei com toda a intensidade
que passei a sentir desde que a vi cruzar aquela rua.
-me...-minha voz tomou caminho contrário, desceu pela garganta e escapou pelo coração, que
disparou um jato de luz que como um espelho d’água esparramou pelo teto do
quarto, ficando grudado lá.
Seus beijos foram me descendo pelo pescoço, abrindo os botões de minha camisa, deixando meu peito nu. Uma onda corria em mim, um oceano. Enquanto meus seios eram mordidos, sugados, eu segurava seus cabelos em sua nuca, apertando-a contra mim. Mãos deslizaram pela cintura, desaparecendo em minha calça, se enterrando lá. Uma onda de prazer me subiu pelo corpo, me abri como uma flor. Em gemidos baixos, a queria sentir toda em mim, me entregar àquela mulher - o tempo havia literalmente parado.
Seus beijos iam descendo pelo meu corpo, me tirando o resto da roupa. E então, sua língua me tocou o clitóris
e seus dedos me abriram como uma flor, a queria cada vez mais fundo, mais fundo. Acelerando, intensa e vermelha. Como se meu corpo fosse tomado por milhares de galhos de arvore em forma de veias, pele e poros, num vai e vem, explodi
apertando seu rosto contra minha florzinha que pulsava. Os olhos revirando.
- por favor, não se mexa...- tentei pedir a ela entre gemidos, para que sentisse o relaxamento pós prazer, junto ao
carinho.
Sorriu para mim enquanto me beijava a coxa, e ficou a me olhar, mão apoiadas no queixo.
Momentos depois, seu corpo deslizava sobre mim, nos comprimindo num abraço. O sol nos aquecia através da
janela, seus cabelos dourados brilhavam. Mergulhei fundo em seus olhos e
senti o gosto do meu mel em sua boca. Sua pele também cheirava a mim.
Mergulhamos numa névoa de prazer, de sensibilidade.
Acariciei seu rosto com o meu, lentamente, numa dança. Minhas mãos corriam por seu pescoço
pálido, como veados correndo suave numa floresta.
O resto vocês já podem imaginar.
Lá fora, com todo aquele brilho, nuvens alaranjadas coloriam o céu. Permitiam ver de novo, as cores da natureza que crescia ao redor do lugar.
Mais tarde, o mundo começava a acordar, pessoas chegavam...
-estão chegando, preciso ir. -disse ela enquanto se vestia.
-foi tão rápido. Essa noite, esse amanhecer. Tem certeza que quer ir?- segurei um nó na garganta.
-é preciso. – e foi caminhando até a porta. - vou caminhar por aí. Me encontrar, encontrar uma vida nova. Morrer é
algo novo para mim.
- se um dia quiser voltar,
estaremos a sua espera.
-quem sabe...
Através da janela, no final do corredor, a vi caminhando pela estrada de chão até sumir da minha vista.
Continuei enxergando seus passos, as ondas magnéticas deixadas por eles, a
silhueta do ar que girava ao seu redor. O registro da sua ultima vista. E chorei de emoção.Minutos depois, mãos conhecidas me
tocaram os ombros...-amor, o que está olhando tão perdida?
Gelei.
- Só olhando a rua. – respondi,
ainda distante. - Oh Léo, senti tanta saudade. – o coração se encheu de alegria
e a abracei fortemente.
Então saímos dali.
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