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doce submissão

Lembro do dia que viajei de onibus e aquelas mãos me tocaram pela primeira vez. Meus dedos, como se controlados por outro alguém, corriam por meus antebraços fazendo carinho. Riscavam tatuagens em mim. - sinto tanta saudade. - Ela me falou usando docemente minha própria voz. E era tão agradável ouvir, que pedi a mim mesma para que continuasse a falar. Os pensamentos corriam duvidosos do que acontecia. - Se sou eu ou apenas você, pouco importa agora. Deixa que o amor te liberte. Então beijei minha própria boca. A lingua corria gostosamente pelo meu céu, sentindo seu gosto estrangeiro.. Nós de mãos dadas e a voz estrangeira repetia... - Que saudade. - Não tenha medo, pode falar por mim. Do lado de fora, o onibus corria por paisagens de montanha. O céu mostrava o fim da tarde. - Dá sua mão aqui. -Alguma de nós disse a coçar o nariz. Que nem um cachorrinho. E foi subindo. Ondas de carinho desenhavam círculos em nossos olhos fechados. Até meu coração pude sentir, entregue ...

Tokanda - trecho

Tokanda Tenho como um sonho bem distante a lembrança de meus irmão, tudo pretinho que nem eu. Morava todo mundo em uma casa de fazenda, mas lembro bem pouco dela porque fugia muito. Fiquei por lá até o meio da minha adolescência porque um senhor me tirou pra criar na cidade. Mas antes de ele me levar embora muita coisa aconteceu. Extremo sul da Bahia, 1917 Ia lá meus 16 ano quando um dia acordei em um lugar diferente. Aquela luz clarinha entrando pela janela do quarto. Não conseguia olhar pro lado de fora porque precisava levantar, e me dava uma preguiça tão grande. Aquela calma que parecia que o tempo tinha parado. Nem o futuro existia mais. A cama tinha um cheiro de lençol limpo, toda coberta de flores. Queria era beijar tudo de tão cheiroso que era. Lá em casa dormia eu e um monte de menino, tudo no mesmo apertado. Agora tinha uma cama inteira só pra mim. Fiquei rolando, sentindo aquele cheiro bom pra aproveitar. Depois fui levantando devagarinho, como se qualque...

a estranha loja de magia

em homenagem ao paraíbano da banca de revista lá de Itabuna, que me abriu imensamente a fome de leitura através de seu cheiro de papel velho e poeira. e a meu avô, que me levou até lá, para eu eu escolhesse o que quiser. pouca gente sabe, mas apertada entre dois prédios velhos em uma rua perto daquele cinema Glauber Rocha lá de Salvador, fica uma portinha fechada. quem entra por ela encontra uma loja de antiguidades bem peculiar. uma placa bem desbotada dá a impressão de que a salinha lá de dentro já foi abandonada. mas é só a aparência. se você quiser chegar lá qualquer hora dessas, precisa nem bater, é só entrar. vai ser recebida por um rapaz que a gente chama de o Paraíbano. Com p maiúsculo mesmo, porque de tanto tempo que o conheço, gravou em minha cabeça que aquele é o seu único nome. estou perto dos meus 40 anos. Em minha primeira infância, lembro que ele parecia ser bem mais velho que eu. hoje parece ter a minha idade. sempre muito alegre, ele te explica sobre qualquer ...

minha história

Não me lembro muito da minha infância, vivi numa fazenda, no interior da Bahia junto com meus irmãos. Por eu ser muito bonita, um dia o barão Alberto Soledade me pegou pra criar. Minha mãe me deu sem nem pensar. Fui embora para ilhéus, bem longe de onde morei. Para ser domesticada por ele, um homem que não era nada doméstico. Seus modos eram piores do que os meus. Só por ser branco, achava que era superior. O tempo foi passando, fui crescendo e ele achou de me abusar. Começou a fazer ozadia de branco comigo até o dia que inventou que eu ia casar com ele. Não gostei nada da idéia. De esposa só tinha o nome, porque era mesmo empregada dele. De noite me usava pra suas nojeiras. Um dia ele me manda ir entregar uns papel na casa de um outro barão que chegava na cidade. Chegava de Minas Gerais, o barão Fernando Vieira. Lá eu conheci uma senhora muito bonita, a esposa dele. Chamava Elenice Vieira. Aquela Elenice era muito saída. Gostava de sacanagem que nem os outros brancos. Só qu...

MEUS ANOS LÁ

MEUS ANOS LÁ A charrete correu distante. Lembro de muita coisa daquela tarde, do dia que cheguei lá. Nem mocinha era ainda. Meus pais ficaram do outro lado do mundo. Bem longe, que eu pequena nunca iria chegar. Trazia os cabelos louros cortados em cuia, artimanha dos meus tios que meus primeiros anos cuidaram de mim. Me vem embaçada na memória uma conversa entre o cocheiro e a madre. Momentos antes de ele me deixar e ir embora para sempre. Olhava atentamente cada janela e cada porta Cada canto de parede, cada palmeira que o vento balançava. Um letreiro assombrado pairava acima dos portões: “ORFANATO RENASCER” Um sol de despedida brilhava por trás do casarão. Sua luminosidade peculiar parecia me indicar que aquele era um fim. Me perdi. Já temia as freiras. Me assustavam suas roupas negras. Sua secura em falar dos maus modos das crianças. Sabia dentro de mim, que por muito tempo não veria o resto do mundo. Que não teria noticias de nada, como quem viaja para o futuro nu...

capítulo final

Queria poder contar a vocês só historias boas. Omitir as ruins e dizer que foi tudo como um sonho. Mas vocês nunca acreditariam em mim. Poderia dizer que passei o resto dos meus dias no castelo de Tokanda e passaria com esta história, tanta segurança, tanta felicidade que vocês se sentiriam como eu só em ouvir. Acreditariam no amor e em todas as coisas bonitas da vida. Mas não deu. Nada aconteceu como sonhei... -mulher de família não bate em homem. Seu pai adoeceu com o seu sumiço. E não vai gostar nada dessa historia... -ele vai gostar de saber que sua filha recebeu uma promessa de surra? De um homem que nem marido é? Deixa ele saber! -mas é um homem bom, que te ajudou a voltar pra casa... -voltei por falta de escolha! –falei baixo, olhando em seus olhos. – chegou atirando nos meus amigos e ninguém fez nada contra ele... atirou até no homem que eu queria casar... chama ele mais uma vez de homem bom, mãe! Chama! -o que estão discutindo aí? –gritou meu pai, da sala. –há meses sum...

+Alucarda+

-minha filha, guardo comigo historias dos seus dias. Quando meus pés já não caminhavam sobre a terra e os animais a vigiavam, torcendo por você. Quando os céus me levaram ao destino final. Um dia te contarei sobre suas próprias descobertas, sobre o mundo conquistado a sangue por suas mães e seu pai. Te contarei sobre a distancia que o sol e a lua percorreram após a minha partida, sobre os tempos difíceis da orfandade das duplas mães. O ódio que correu após, em seu sangue de criança, suavemente contra nosso ceifador. Lembro-me do estratagema que crescia entre seus brinquedos de criança. Os planos de morte contra seu pai. A tudo vi, intangível, do outro lado da vida. Lembro do nosso ceifador a tentar domar sem sucesso seu espírito mau. Sem entender o animal que era você. A tudo vi. Agora novamente entre nós, revelo o que não lembras mais e o que não percebeu. Aquelas coisas que corriam ao teu redor, planejadas por nossa mãe abaixo do meu nariz. Agora te conto... Dez anos contados após s...