Tokanda - trecho

Tokanda



Tenho como um sonho bem distante a lembrança de meus irmão, tudo pretinho que nem eu. Morava todo mundo em uma casa de fazenda, mas lembro bem pouco dela porque fugia muito. Fiquei por lá até o meio da minha adolescência porque um senhor me tirou pra criar na cidade. Mas antes de ele me levar embora muita coisa aconteceu.



Extremo sul da Bahia, 1917



Ia lá meus 16 ano quando um dia acordei em um lugar diferente. Aquela luz clarinha entrando pela janela do quarto.

Não conseguia olhar pro lado de fora porque precisava levantar, e me dava uma preguiça tão grande. Aquela calma que parecia que o tempo tinha parado. Nem o futuro existia mais.

A cama tinha um cheiro de lençol limpo, toda coberta de flores. Queria era beijar tudo de tão cheiroso que era.

Lá em casa dormia eu e um monte de menino, tudo no mesmo apertado. Agora tinha uma cama inteira só pra mim. Fiquei rolando, sentindo aquele cheiro bom pra aproveitar.

Depois fui levantando devagarinho, como se qualquer movimento pudesse tirar aquela sensação boa.

Tinha três janela, a única aberta era a que tava perto de mim, na parede do lado da cama.

Quando Levantei, vi um mundo velho do lado de fora.

Por dentro do quarto as paredes era toda de pedra, mas do lado de fora aquelas nuvem amarela enchia o céu que nem um quadro. O lugar todo era cercado por uma floresta que se perdia das vista.

Parecia que tava bem longe de meu irmão.

Me deu um aperto no peito, aquela saudade de casa. Mas ao mesmo tempo que queria voltar pra casa, queria ficar ali.

Não tinha perigo. Era que nem ta em casa, só que sem ninguém.

Deu logo vontade de conhecer o lugar todo, de sair andando. Queria era sair voando pela janela de tão feliz. Mas ia era cair lá embaixo.

Pela porta meio aberta fiquei vendo o corredor. Tava silencioso, tudo escuro que nem no cinema quando a gente só vê a luz da televisão e fica queto esperando o filme começar.
Tinha um monte de quarto igual o meu, mas tudo com as porta fechada.
Fui andando toda medrosa por aquele corredor grande, até que entrei em um beco e cheguei em uma varanda.
Tinha um monte daqueles enfeite que a gente vê nos telhado das casa dos senhor. Só que pelas parede também.

Desci por umas escada e cheguei do lado de fora da cozinha. Fiquei parada lá, o fogão tava aceso.

Logo ouvi alguém vindo na minha direção.

Me escondi no meio das planta do lado de fora pra ninguém me ver.

Tava com vergonha porque a casa era muito bonita, não queria que me vissem sem saber se podia.

Não sabia nem quem morava ali, nem quem tinha me trazido.

Uma velhinha vinha carregando uma panela cheia de fumaça. Vi logo que era café por causa do cheiro.

Duas mão grande pegaram em meu ombro por trás e virei pra olhar...

-calma menina, não precisa ter medo. - disse a criatura.



Um nego de quase dois metro de altura me olhava. Mas no lugar da cabeça dele tinha um circulo em forma de ovo voando. Parecia que tinha riscado no ar. A cara dele falava comigo pelo meio daquele círculo.

-tenha medo não, menina. Minha cabeça voou pra longe e meus pensamento ficaro aqui esperano ela voltar... Olha isso, de qualquer lugar que me você me ver, vai ver meu rosto de frente. -tentava rodar a cabeça sem conseguir. Rode aí por trás de mim pra cê ver.

Não conseguia nem me mexer olhando aquela criatura. Só fiquei parada.

- posso olhar para todos os lados ao mesmo tempo. Olha isso. - rodava o corpo e a cabeça não virava.

E eu só conseguia dizer não com a cabeça, assustada. Fiz que ia pra a floresta, pra fugir dele sem ele perceber. Fui andando rápido e ele me seguindo, até que comecei a correr.

-o senhor ta nu. Sai de perto de mim!

-não vou te fazer mal! Espera minha cabeça voltar, ela é bonita. –ficava falando comigo, tentando me chamar de volta.

Seu corpo era pesado, queria me seguir mas eu corria mais do que ele. Logo me afastei. E ele até me seguiu por um tempo mas perdi de vista porque corri muito.



Ainda ouvia seus grito me chamando quando entrei na floresta.

Não tinha caminho aberto, era tudo mata fechada, como se ninguém nunca tivesse chegado por ali. Os galho no começo me cortaram a roupa toda. Ia me enfiando pelo meio dos mato e pelo meio das arvore. Aos pouco tudo foi se abrindo de novo, os galho se mexia na minha frente. Fazia gesto mandando eu passar, as folha era as mão das arvore.

Parecia que eu tava desmaiando sem perceber. Não conseguia mais contar o tempo, não sabia quanto tinha passado. Sabia nem quanto tinha andado até ali. O chão ficou quentinho, macio, parecia até que eu tava flutuando.

Nunca tinha visto tanto silencio que nem naquele dia, e olha que eu era de andar muito por dentro dos mato. Tentava ouvir os passarinho e nada, não tinha som de água. O vento batia em meu cabelo e nem cantava.

A tarde ia terminando e nem escurecia. O sol tinha desaparecido já, coberto pelas arvore. O mundo ficou todo parado.

O brilho e as nuvem...

A cor do céu e o vento...

O silencio e os galho no alto das árvore...

Conto as hora na cabeça direitinho e até isso tinha parado quando fugi daquela casa.

As nuvem foram ficando cansada, queriam ir pra casa mas não conseguia escurecer.

Aos pouco fui pisando no chão molhado. O cheiro de água vinha andando pelo ar, chamava meu nariz pra seguir parecendo que eram amigo. Só faltava colocar o braço em volta de mim. Aí eu segui ele.

Até que um lago apareceu na minha frente.

As margem tinha o desenho de um olho. E a água me convidava pra nadar. Tirei o vestido que já tava rasgado e todo sujo do tanto que andei, e mergulhei no rio.

O povo do meu tempo dizia que os nego era tudo feio, mas eu me achava bonita. Pedia pra os outro cortar meu cabelo que nem de home pra ficar com cara de braba. Era baixinha que nem uma criança, metro e quarenta por aí. Pé largo, acostumado a correr pelos mato. Era uma nega forte e muito braba. Diziam que eu parecia um bicho mas eu era que nem uma criança.

inocente e maleducada.

A água tava morna e salgada. O rio era tão fundo que não dava nem pra colocar o pé no chão, conseguia nem ver o fundo. Só fazia boiar, a correnteza que me levava pra longe.

Pisquei o olho e pensei que tivesse no céu, quando fica de noite e ta tudo escuro. Que a gente só vê as estrela.

- nade em mim. – disse alguém lá no fundo do rio. Era uma voz calma, entrava pela minha cabeça sem eu nem sentir, a voz nem passava pelos ouvido. Fazia meu olho querer fechar de sono.

Depois que fechei o olho vi as estrela brilhando, por baixo e por cima de mim, por todo lado. Precisava nem virar a cabeça, via elas pelas costa. Me olhei em um espelho bem grande, eu era uma estrela lá longe no céu. Um ponto bem pequeno.

A correnteza do rio levou meu ouvido pra tão longe que nem a vista alcançava.

-toque em mim também. – falei sem perceber. – sou grande que nem o mundo.

Umas mão feita de água fez carinho no meus pé, ficava riscando de um jeito que até senti um arrepio. Subia pelos dedo e parava no meio, parecia até que tava tocando na minha florzinha –era assim que eu chamava minhas partes intima-, entrava e saía pelo outro lado, descendo por cima do pé.

Veio uma onda correndo pelo meio das minhas perna, que nem umas mão empurrando pra os lado pra eu abrir. E quando viu que eu não ia abrir, ela falou...

-toque em mim também. –ela pediu com vergonha. – deixa eu mergulhar em tu.

Fiquei vermelha da cor de um tomate, sabia o que ela queria mas nunca tinha feito.

-mas eu nunca fiz isso, moça. - falei alto. – sei nem como faz.

A água me abraçou de um jeito tão carinhoso que só fiz abraçar ela também.

-nunca fez xixi? É tapada? Só abre as perna e solte. Deixa eu me afogar nim tu.

-mas isso é sujo. Cê gosta dessas coisa?

-não vou te olhar não, só faça. –um ventinho molhado me tocou no rosto... -só tem você aqui só. Deixa eu sentir.

Cheia de vergonha, abri as perna e deixei sair o jatinho de xixi. A água em minha volta ficou toda amarela. Subiu aquele vapor de água, e o ar clareou parecendo que era de manhã.

-é doce. – disse a moça da água.

Duas mão apareceram no meio dos meus pé, naquele jeito de reza. Vieram nadando até mim que nem um boto, quando a gente só vê as costa dele. Afastei as perna pra deixar elas chegar. Aquelas mãos abriram minha florzinha no meio e aí foi que tomei coragem e mijei mais forte. Mijei pra o alto. O barulho do meu xixi caindo na água fez subir um fogo dentro de mim.

-você é uma moça muito bonita. – um rosto de menina foi aparecendo debaixo dagua. Eu deitada só conseguia sentir ela subindo.

-cê acha mesmo?

-eu acho sim. Vê se cê gosta disso...

Colocou a língua no meio da minha florzinha e ficou lambendo o restinho de xixi.

Depois aquela moça bonita ficou olhando pra mim e rindo com os cotovelos em minhas coxa. Descansou o queixo nas mão e ficou piscando aqueles olho para mim. Toda besta. Tinha uns cabelão preto, cheio cobrindo os ombro.

-você é uma assombração?

-eu sou a moça do rio. Fosse assombração você nem tava mais aqui. já tinha corrido de medrosa.

-sou medrosa não, moça.

-gostou do que eu fiz lá com você? –ficava rindo.

-eu gostei, mas isso é coisa de home. Mulher não pode ficar fazendo essas coisa não.



Começamo a ouvir uns passo lá longe. As arvore tremia tanto que parecia que alguém tava derrubando.

- ta vendo as arvores tremeno? Tem alguém chegano. – olhava pra os lado toda assustada, procurando de onde vinha o barulho. – deixa eu te esconder, a água não vai te fazer mal não.

Abracei o corpo dela e fui afundando, ficamos de rosto colado. Olhando uma no olho da outra.

-é o senhor! Ele ta vino te buscar.

As arvores começaram a cair cada vez mais perto da gente. Parecia que um gigante tava pisando no mundo.

Em uma margem apareceu um homem montado em um cavalo. Vestia um pano que cobria seus ombro.

-olhe pra ele não, ele vai terminar te achano. – me pedia com medo.

Mas ele olhou com aqueles olho verde em minha direção e falou...

-tem alguém aí? – olhou na minha direção, curioso.

-pela ultima vez, não responda.

-ele já me viu. –falei triste pra ela. –foge pra bem longe, vai.

Aí não vi mais nada, ela tinha sumido. Mas não era coisa da minha cabeça não. A gente tinha ficado ali a tarde toda.

Aí vi que não podia respirar debaixo da água. Os pulmão foi logo sufocando e levantei. O rio nem era mais fundo, batia na minha barriga.

Parecia magia, a noite foi chegando e logo começou a fazer frio. As nuvem correram pra casa, pra escurecer logo. Um vento frio me arrepiou.

Tudo ficou perigoso. Só porque aquele homem tava olhando a gente.

As Cobra podia sair de qualquer lugar e as pedra do lago tava cheia de limo, eu podia escorregar e cair nelas.

Se chovesse eu podia pegar uma gripe forte. As onça com os olho de fogo tava sentada nas margem, esperando eu sair.

Comecei a tossir forte e ele veio me ajudar...

-vem pra casa menina, ta ficando tarde. Deixa eu te ajudar a sair daí vai. Ta doida? No meio dos mato assim. Parecendo visage.

O vento batia nas arvores e os pássaro voava procurando onde dormir na noite que já tava chegando.

-já ta escuro, sobe aqui que eu já quero ir embora. – me estendeu a mão, sem paciência.

-deixa só eu procurar minhas roupa, a correnteza levou. – cobria meu corpo com as mão pra ele não ver. Tentei mergulhar a procura do resto de vestido mas a água já tava escura.

Era como se a moça nunca houvesse existido.

-vou te ajudar só dessa vez, pega esse pano aqui e se cobre que ta frio. –disse sem nem olhar pra mim. Quando desceu do cavalo, suas bota cheia de lama bongaram a água, a sujeira do fundo todo subiu. – não vou te morder não. Pode subir.



O cavalo correu por uma estrada aberta.

Antes de sair, ainda acho que vi com o canto do olho uma criança. Tinha umas orelha de raposa. Ficou espiando a gente um pouquinho e depois fugiu assustada.

-como é que você conseguiu chegar tão longe? Veio fugida?

-é que tinha um home quereno me pegar. Corri dele a tarde toda.

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